

O Demo Sul é um o maior festival de música independente do Paraná, e este ano levou nomes como Júpiter Maçã e Cachorro Grande como atrações principais, fazendo um público enorme se aglomerar inutilmente na porta do bar Amnésia em busca de ingressos que já estavam esgotados. Mas a nossa saga começa antes deste tumulto. Vamos partir do início – a saída de Curitiba.
Sexta-feira, 28 de outubro, exatamente às 13:30 saímos da cidade, levando além dos instrumentos e bagagens, algumas cervejas e muitos CDs para serem apreciados durante o trajeto. Bruno, o motorista oficial, responsável e politicamente correto, ingeria doses de água e coca-cola, enquanto o resto de nós se embebedava.
A certa altura, ainda antes de chegarmos em Ponta Grossa, o Caetano e o Rafa quiseram ouvir Black Sabbath. Eu preferia continuar escutando o último CD do Paul McCartney, mas como aquela já devia ser a centésima vez que ouvia o disco, não relutei. Pus o CD que eles pediram e logo uma chuva torrencial começou a cair. A trilha sonora pesada veio bem a calhar com o clima tenso – visibilidade zero, estrada encharcada, velocidade reduzida, vontade de fazer xixi...
Parávamos em quase todos os postos, íamos ao banheiro e comprávamos mais cerveja. Assim demoraríamos um pouco mais pra chegar, mas ninguém estava com pressa. Tínhamos tempo suficiente para chegar em Londrina, tomar um banho e confraternizar um pouco antes de ir pro show.
Mas a chuva não dava trégua e qualquer motorista sabe que dirigir em uma estrada que não conhece, debaixo de um pé d’água, não é nem um pouco agradável. E ninguém ali, além do Bruno, teria condições de encarar a direção pra ele dar uma relaxada. Mesmo assim a viagem estava tranqüila. Trilha sonora de primeira, companhias agradáveis e bem humoradas.
No entanto, quando estávamos há mais ou menos cem quilômetros de Londrina, o carro começou a fazer um barulho tipo Kombi 63, daquelas de quitandeiro, e andava pouco, mesmo pisando fundo no acelerador. Resolvemos tocar até a próxima praça de pedágio e pedir socorro mecânico. Uma hora de espera e fomos rebocados até um outro serviço de guincho e, guinchados, chegamos em Londrina às nove da noite.
Nosso humor já não era mais o mesmo. Estávamos tristes e cabisbaixos com o gasto inesperado de R$ 300,00 pelo socorro. Ligamos para o Lucas, baterista dos Substitutes, para nos resgatar na concessionária da Fiat, onde deixaríamos o carro para ser analisado na manhã seguinte. Esta alma caridosa nos deixou no hotel para nos arrumarmos e nos levou ao local do show. Fomos nos amontoando desajeitadamente até caber todos os instrumentos e mais seis marmanjos no carro – os Criaturas, o Lucas de motorista e o Rodrigo Cheiroso no meu colo.
Chegando lá, tivemos que atravessar o tumulto promovido pela busca dos ingressos e entramos no bar já lotado, com a segunda banda no palco. Fomos até nosso camarote, afinamos os instrumentos e logo chegou a nossa vez. Já estávamos mais descontraídos, sabíamos que a única coisa que nos restava era fazer um bom show. E fizemos.
Uma multidão estava ali em nossa frente, levando nossa adrenalina a mil antes de dar o primeiro acorde. Começamos com Bianca, e eu, sinceramente, não posso descrever o que estava sentindo. Era muita gente, alguns chamavam meu nome, mas eu não via nada, estava de óculos escuros – sem grau – e os canhões de luz, muita fumaça no ar e uma cegueira súbita de nervosismo me impediam de reconhecer quem quer que fosse.
O show foi, como gosto de dizer, eletrizante. A maioria do povo agitava, dançava, pulava, gritava. Alguns manés clamavam por Cachorro Grande, o que a meu ver era um desrespeito desnecessário para as outras bandas, já que os caras estavam ali e iriam tocar de qualquer maneira. Se não fosse meu chapéu coco, teria levado uma ou duas garrafadas na cabeça, que voavam de algum lugar e insistiam em aterrissar na aba de meu chapéu. Se alguém ali tentou me derrubar, ficou muito frustrado. Latas de cerveja nunca me fizeram mal.
Tivemos que terminar o show um pouco antes do esperado, o que nos obrigou a limar duas músicas do repertório. Até onde eu sei a programação atrasou, mas os Cachorrões não podiam esperar. Por este motivo nós e os Substitutes fomos obrigados a desplugar antes dos nossos 30 minutos que nos eram de direito.
Saímos do palco ofegantes e satisfeitos com a performance. Pessoas vinham nos entrevistar, tirar fotos, pedir CD, e eu querendo muito uma cerveja. Mas não tinha ânimo nem coragem de atravessar aquela multidão, de modo que fui direto ao camarote, recebendo cumprimentos e olhares curiosos das pessoas por quem passava.
Assistimos ao show dos Substitutes e vimos um pouco da apresentação dos gaúchos grandes. Eu já estava pra lá de bêbada, cansada pra caralho, com fome e vontade de dormir. Fiquei enchendo o saco dos caras da organização para me levarem pro hotel, até que a van chegou e eu e o Bruno fomos embora. Os demais ficaram lá curtindo a festa.
Na manhã seguinte acordamos e ligamos pra concessionária – o motor do carro teria que ser retificado. A biela, o pistão, a rebimboca da parafuseta, tava tudo uma merda. Teríamos que guinchar o carro de volta, pois ele jamais ficaria pronto até segunda-feira e, mesmo assim, eu deveria estar em Curitiba no domingo à tarde. Foram mais R$ 800,00 de guincho, fora as passagens de ônibus Londrina-Curitiba. Voltamos no sábado mesmo, menos o Caetano, que ficou por lá e voltou só no domingo.
Gostaríamos de ter ficado mais. Eu nem vi toda a galera, não tive fôlego pra ficar até o fim da festa e ir pra outro boteco com eles... às vezes penso que estou ficando velha, mas depois de uma viagem daquelas e sem nenhum suquinho Gummy pra animar o espírito, não há alma roqueira que agüente. Além do mais, ficar lá sem dinheiro pra nada não faria o mínimo sentido.
Merdas acontecem. Poderia ter sido pior... nada que frases feitas não consolem. No final, o saldo foi positivo. Acho que passamos uma boa impressão ao público da pequena Londres, muita gente que nunca tinha ouvido falar de Criaturas já faz está em nossa comunidade do orkut tecendo bons comentários.
Agora temos que correr atrás do prejuízo. Vamos tentar fechar um dia da semana fixo em algum bar da cidade, e esperar que vocês aqui de Curitiba compareçam nos shows e comprem CDs, para que possamos saldar as nossas dívidas financeiras e levantar um caixa dois para gravar outro disco!
Deixamos aqui nossos sinceros agradecimentos aos amigos londrinenses, a toda a organização do Demo Sul, aos pais do Bruno e do Caetano que não ficaram putos por termos fundido o motor do carro deles, enfim... obrigada!
Vocês são oátimos!
Foram anunciadas as bandas que tocarão no 5º Festival Demo Sul, que acontecerá no final de outubro, em Londrina, no Paraná.
O evento teve sua data transferida devido ao plebiscito que acontecerá no dia 24 de outubro. Por conta disso, o festival acontecerá entre 28 e 30 de outubro.
Segue abaixo as bandas que tocarão nos três dias do festival. Em breve mais informações do 5º Demo Sul.
Cast Demo Sul 2005:
28/10 (sexta-feira)
Headphone (SP)
Criaturas (PR)
Trilobitas (PR)
Daniel Belleza e Os Corações em Fúria (SP)
Os Substitutes (PR)
Autoramas (RJ)
Cachorro Grande (foto - RS)
29/10 (sábado)
MIM (RJ)
Madera (PR)
Lacertae (PI)
Monjolo (PE)
Canastra (RJ)
The Brown Vampire Cats (PR)
Marcelo Nova (BA)
30/10 (domingo)
Bubble Gum (PR)
Sanatório dos Anjos (PR)
Electrospirose (PR)
Kratera (SC)
Tosco Dudes (PR)
Rock Rocket (SP)
Grenade (PR)
Júpiter Maçã (RS)
Quem foi, presenciou uma das melhores festas que Curitiba já teve. Quem não foi, vai ter que esperar a próxima. Mas não há de demorar muito, pois a NOVA GUARDA vai animar todos os terceiros sábados de cada mês.
A festa foi um sucesso. Casa cheia, público animado e ótimos shows, apesar dos pesares. Sim, nem tudo são flores, meus queridos. O equipamento de voz era precário, o que fez os vocalistas ficarem se esgüelando para se ouvirem e serem ouvidos.
Se fosse só isso, tudo bem! Mas coisas piores aconteceram, causando prejuízo para as três bandas. Quebrou nosso pedal de bumbo, deu pau na guitarra dos Dissonantes, jogaram cerveja no teclado da Mordida... Algo naquele bar parece querer destruir nossos equipamentos. Curiosamente, todos os músicos que eu conheço e que já tocaram no Pandora sofreram danos parecidos. Nós mesmos, na primeira vez em que fizemos um show lá, saímos com a caixa de guitarra queimada! Azar? Urucubaca? Seja lá o que for, não faz a menor diferença! O que importa é que esses tantos imprevistos não comprometeram a festa, os shows foram simplesmente arrasadores, e o público animadíssimo sabia as letras na ponta da língua!
CRIATURAS abriu a noite com o povo ainda encabulado. Começo de festa, ninguém querendo arriscar uma dancinha mais ousada, de modo que as pessoas balançavam timidamente a cabeça, batiam o pé, cantarolavam de leve os refrões, bebericavam seus copos e analisavam minuciosamente a performance da banda.
OS DISSONANTES entraram com tudo. Essa gurizada está a cada dia melhor, mais empolgante, mais... dissonante? As pessoas já se esmagavam no mísero espaço que havia entre o palco e a parede para dançar e cantar todas, sim, eu disse todas as músicas dos caras. Uma nova canção foi incluída no repertório, intitulada Baby Nunca Mais, que como já era de se esperar, é mais uma forte candidata a hit!
MORDIDA foi uma verdadeira abocanhada, entrou no palco e surpreendeu a todos com sua nova e poderosa formação. A entrada de Ivan na batera e de João David no baixo e nos backings somou muito ao som da banda. Mordiscaram clássicos do rock gaúcho com muita personalidade, fazendo do final da noite uma verdadeira festa de arromba!
Para mim, escrever sobre o Criaturas é um grande prazer. Mais que um prazer, é uma verdadeira honra. Não apenas por serem eles amigos queridos, de longas datas – e por isso mesmo eu posso falar –, mas pela certeza que tenho de estar prefaciando uma grande obra. Obra que não só é o resultado de um longo trabalho de quatro músicos sérios e dedicados, como também um expressivo retrato de uma época sem precedentes na cena curitibana – e por que não dizer, na cultura paranaense?
Acredito que, como os quatro cavaleiros do apocalipse, cada um deles representa, de maneira arquetípica, sentimentos muito fortes. São como a encarnação de momentos muito bem compreendidos por todos nós, criaturas desencaminhadas e desencaminhantes, perdidas na noite da CWB.
Xanda Lemos é velha de guerra da cena curitibana. Tocou em formações poderosas nos distantes anos 90; tocou sozinha, tocou em dupla. Dividiu palcos e histórias com grandes nomes da MPB. Escreve poesias, escreve contos e ainda encontra tempo para hipnotizar a todos com sua sombria sensualidade e visceral presença de palco.
Rafael Rodrigues, por sua vez, é a personificação das ruas curitibanas, com sua garoa e brisas congelantes. As sombras de cada esquina, entremeadas pelo brilho opaco e alaranjado dos postes de halogêneo do centro da cidade, muito bem representados em cada costura de sua parka-verde. Ouça seus encorpados solos de guitarra e sinta a raiva em cada timbre vocal. Só assim pra entender o que estou querendo dizer.
Caetano e Bruno Zagonel (baixo e bateria, respectivamente), formam a cozinha mais surpreendente que você poderá encontrar em ação! Com a precisão e a fúria inexorável de um Panzer determinado a cumprir sua missão, são a pedra fundamental da sonoridade que faz do Criaturas uma das mais impressionantes, originais e criativas bandas que a CWB já produziu.
Este trabalho é um pequeno registro de um pouco de tudo isso.
Fique indiferente se for capaz...